Como a pressão por viralização está mudando a curadoria das festas independentes
Da crise dos "falsos headliners" ao esvaziamento da cena local

Historicamente, a curadoria musical de uma festa era definida por pesquisa, coerência estética e pela capacidade de construir uma narrativa sonora que educasse e conectasse a pista. Hoje, no entanto, a pressão por viralização está alterando profundamente a forma como os line-ups são construídos, transferindo o foco da qualidade artística para a garantia de engajamento.
Segundo o relatório Desigualdades Informativas (2024), do Aláfia Lab, o Instagram se consolidou como a principal fonte de informação para quase 70% dos brasileiros. O público, imerso em uma economia da atenção pautada por vídeos curtos e tendências, passou a exigir atrações que carreguem a aprovação das redes. Diante disso, muitos produtores independentes sentem-se forçados a moldar seus eventos com base nas métricas de possíveis convidados.
O resultado é um fenômeno chamado de crise dos "falsos headliners". Na ânsia de garantir a viabilidade financeira da festa, produtores investem a maior parte de seus orçamentos na contratação de artistas que acumulam centenas de milhares de seguidores e vídeos virais. O problema é que o hype digital raramente se traduz em conversão de ingressos e, muitas vezes, falha em entregar a densidade musical que um evento ao vivo exige.
Os efeitos colaterais dessa lógica recaem diretamente sobre a base da cena. Quando um coletivo direciona quase todos os seus recursos para atrair um nome viral, o ecossistema da cidade é prejudicado. Produtores, residentes e talentos da cidade acabam relegados aos horários marginais da noite, trabalhando por cachês desproporcionais para abrir a pista para atrações que, em muitos casos, não dialogam com a realidade daquele espaço.
Além disso, a curadoria pautada pela viralização atrai um público igualmente focado na performance e no registro digital, esvaziando o senso de coletividade que define as festas independentes.
Oblongui, produtor e idealizador da TREMA TECHNO e do portal Tuntistun, em Brasília, apontou a postura de coletivos que escanteiam quem constrói a cena no dia a dia. "O cara faz a festa, toca no começo ou no final, traz um monte de artista que não é conectado com a cidade, que vem aqui, ganha o dinheiro, leva embora, e isso não agrega culturalmente".
Recuperar o controle da curadoria exige que os coletivos independentes adotem uma nova postura estratégica. A mudança começa quando a própria festa passa a ser o seu headliner. Quando um projeto investe em uma identidade sonora, abre espaço para novos talentos através de dinâmicas como o Open-CDJ e constrói uma relação de confiança real com seu público, a dependência do algoritmo diminui. O frequentador passa a comprar o ingresso pela experiência garantida pela marca, e não apenas pelo nome em destaque no flyer.
A curadoria, afinal, é o que difere um simples ajuntamento de pessoas de uma comunidade real. Retomar a escolha artística é o único caminho para garantir que as festas independentes continuem sendo espaços de cultura, e não apenas reféns de tendências.